Entrevista para Daniela Galdino (Doutoranda em Estudos Étnicos e Africanos - UFBA/CEAO; Docente da UNEB, Poeta)

Perguntas :

 

1 - Poderia narrar o teu percurso na autoria de livros infantojuvenis ?

Sempre fui amiga das palavras, dos livros e da poesia. Apesar de não ter livros em casa, minha mãe me contava muitas histórias e me ensinava versinhos. Com isso, além de alimentar as minhas ideias, fui me tornando íntima das palavras. Logo, logo comecei a escrever versos para acompanhar o meu crescer, as minhas paixões e os meus sonhos... Mas nunca, nunquinha, imaginei( ou mesmo desejei) me tornar uma escritora. Cresci e me tornei professora. Grande realização para mim e para minha família. Para compartilhar com os meus alunos a paixão pelo texto ( escrito e falado) contava histórias, todos os dias, para eles. E assim, desse jeitinho, fui ampliando o meu repertório e o dos meus alunos também. A hora da história sempre foi para mim um momento de muito afeto. Acredito que quem lê para alguém uma história o abraça de alguma forma. Um dia comecei a inventar minhas próprias histórias. Os meus alunos gostaram muito, eles foram os meus primeiros críticos. E então, somente neste momento desejei me tornar uma escritora para compartilhar com outras crianças as histórias que inventava.

 

2 - Como se deu o contato inicial com as editoras? Como a sua produção foi recebida?

Foi muito difícil. Era uma simples professora que queria ser escritora. Não conhecia ninguém da área editorial. Não sabia nem por onde começar. Pergunta daqui e dali e fui orientada que primeiro deveria registrar os textos na Biblioteca Nacional e depois enviá-lo para as editoras. E então aguardar as repostas das mesmas. Ao longo de oito anos fiz como me orientaram e recebi muitas cartinhas recusando os meus textos. Enquanto aguardava, ia tocando a minha vida. Dando minhas aulas, engravidando dos meus filhos, inventando mais histórias, lendo muito e fazendo vários cursos na área da literatura. Um dia( que dia feliz!) recebi a melhor carta da minha vida: uma editora queria editar o Menino Nito. E assim nasceu a escritora Sonia Rosa há dezoito anos atrás.

 

3 - De acordo com o seu entendimento, qual é a função desempenhada pelas imagens (plano visual) num livro literário infantojuvenil?

O papel do ilustrador é fundamental para a obra. O livro voltado para crianças e jovens tem nas imagens a parceria necessária para contar a história que mora no texto do autor. É preciso que os textos e as imagens se harmonizem e produzam um bom resultado convidando o leitor para que leia aquele livro. As imagens, assim como o texto, devem sempre respeitar a criança evitando situações de constrangimento e desmerecimento quanto a sua etnia e condição social. As editoras são bem felizes na escolha dos seus ilustradores para a composição de suas obras literárias. Elas (as boas e sensíveis editoras) ao lerem os textos já sabem com que ilustrador ele afina. O escritor, depois de um certo tempo no mercado, já pode sugerir alguns profissionais para ilustrar os seus textos. E isso tem acontecido comigo.

 

4 - No processo de constituição da obra você opina a respeito do trabalho realizado pelo/a ilustrador/a?

Hoje já me é dada esta oportunidade. Mas bem no início da minha carreira não podia escolher. Nos meus quarenta e um livros publicados somente um livro não fiquei satisfeita com a ilustração. Achei que as imagens não ajudaram a contar a história que inventei. Fiquei triste com isso e estou buscando soluções junto à editora.Um outro aspecto da minha obra é a presença maciça de personagens afro brasileiros e isso, quase sempre, é fruto de um pedido meu aos ilustradores. Naturamente essa solicitação é feita com cuidado já que a arte é do outro. Mas sempre reafirmo o meu desejo dizendo que “caso seja possível” gostaria muito que os personagens comteplassem a nossa afro -brasilidade.

 

5 - Ao escrever narrativas infantojuvenis você se preocupa com o caráter didático?

A literatura é livre. Ela pode até ensinar sem ter tal intenção. Apesar de professora e pedagoga, fico atenta para não didatizar os meus textos – meus queridos leitores não merecem essa “traição”. A literatura aborda a vida. As perdas, as despedidas, o amor, as frustrações, as injustiças, as chegadas, as amizades e muitos outros sentimentos, São matérias humanas que podem ser alvo de discussão em sala de aula. Mas não devem ser objeto de avaliações. O aprendizado é para vida e não para responder assim ou assado numa prova, por exemplo.

 

6 - Jorge Araújo, poeta sulbaiano, certa feita afirmou: “escrevo para me manter vivo”. Qual o para que da experiência literária de Sonia Rosa?

Escrevo para ficar perto das crianças, que adoro! E escrevo também para compartilhar minhas ideias e contribuir para um mundo mais afetivo e solidário.

 

7 - Quais os aspectos que aproximam a tua produção literária das ações afirmativas?

O Menino Nito, um menino negro protagonista – meu primeiro livro lançado pela editora Memórias Futuras em 1995 e relançado pela editora Pallas em 2002 – me trouxe, e continua me trazendo, muitas alegrias. Em BH, há alguns anos, numa escola pública em que fui conversar com as crianças sobre este livro, um menino de mais ou menos oito anos me disse muito alegre e com voz sapeca: “O Nito é igual a mim!“. E era mesmo. Fiquei muito emocionada. Posso dizer (com muito orgulho!) que oitenta por cento da minha obra tem a temática afro-brasileira. O meu Nito surgiu de forma natural. Queria muito que o meu primeiro protagonista fosse negro, tal qual muitos dos meus alunos e muitas crianças da minha família. Na época, eu ainda não tinha uma fundamentação e não sabia com profundidade a força que era ter um personagem negro protagonista num livro para crianças. Isto deu ao Nito, e a minha carreira, uma dimensão inimaginável. Por conta dessa repercussão, e também de, revogação, anos depois, da Lei 10.639, me senti estimulada a aprofundar mais a temática. E então, decidi fazer o curso de Pós-graduação: África-Brasil Laços e Diferenças. Fiquei fascinada com os saberes aprendidos! E até hoje continuo, autonomamente, estudando sobre o assunto.Mas respondendo a sua pergunta: o aspecto da aproximação dos meus livros com as ações afirmativas é referente à questão identitária dos meus textos e das imagens que ele oferece. Busco sempre o fortalecimento da nossa história afro-brasileira. Não é por acaso que assumo a responsabilidade de me apresentar como escritora afro-brasileira para crianças e jovens.

Please reload

Entrevistas
Please reload

Artigos
Please reload

Arquivo
Please reload

Entre em contato
  • Facebook Clean Grey
  • Twitter Clean Grey
  • Google+ Clean Grey

Copyright©2014. Todos os direitos reservados - Desenvolvido por Única Gestão

  • Facebook Grunge
  • Twitter Grunge
  • Google+ Grunge

Siga-me