Entrevista para FLIP em 2013

- Profissionalmente, seu primeiro contato com a literatura infantil e juvenil foi como contadora de histórias da “Brinquedoteca”, espaço lúdico situado nos jardins do Museu da República. Você acredita que de tanto contar histórias de outros autores acabou inventando as suas próprias e teve vontade de compartilhar?

Acredito que fui mesmo influenciada pelas inúmeras histórias que contei ao longo da minha vida. Na verdade, sempre gostei de contar histórias. Quando virei professora fazia isso todos os dias para os meus alunos. Desde menina já fazia poesias e escrevia nos meus diários. Mas a experiência marcante através da partilha da leitura do livro infantil foi me provocando a criar novas ideias e a estreitar ainda mais a minha intimidade com as palavras. Com o tempo, fui secretamente inventando minhas próprias histórias para crianças. Depois desejei compartilhá-las. E foi aí então que nasceu a vontade de virar escritora, desejo que até então nunca havia se manifestado.

 

- Como professora e pedagoga, você desenvolve projetos de promoção da leitura e formação de leitor. Você acredita que esse trabalho te ajuda a conhecer melhor os desejos das crianças na busca de novas histórias?

Promover a leitura e formar novos leitores são compromissos fundamentais de todo professor. Alguns projetos nesta área podem mobilizar uma escola inteira. Sinto-me comprometida com esses trabalhos que visam, basicamente, fortalecer, junto aos alunos, os laços de amizade entre eles e os livros de literatura. Nos eventos literários, a atividade Encontro com Autor é sempre bem recebida e agrada a todas as crianças. Nessas oportunidades, os autores conhecem os seus leitores e vice-versa. Nessas conversas amorosas intermediadas com muitas histórias, sempre sobra tempo para os pequeninos leitores expressarem as suas opiniões, revelarem os seus desejos, fazerem perguntas ou outras considerações.

 

- Uma temática muito presente em suas histórias é a diversidade afro-brasileira. Por que você resolveu abordar o tema em seus livros?

Desde o meu primeiro livro O Menino Nito, 1995, que personagens negros estão confortavelmente presentes nos meus livros. O que começou de maneira espontânea, como uma forma de homenagear amigos e familiares com variados tons de pele, se tornou, ao longo do tempo, um cuidado especial, um compromisso com a temática afro brasileira. Para dar conta desse cuidado fui estudar e aprofundar o assunto. E descobri muitas coisas interessantes e importantes para o fortalecimento do “meu eu” tão afro brasileiro. Em 2003, foi sancionada a lei 10.639, que obriga esses estudos em todas as escolas públicas e particulares do país. Hoje encontramos nas livrarias muitos livros de literatura que contam histórias africanas, falam de seus mitos, de suas lendas. Nossas crianças agradecem a presença dessa diversidade dentro dos livros destinados a elas!

 

- Você tem quatro salas de leitura em escolas municipais do Rio de Janeiro com seu nome. Conta um pouquinho dessa história e de que forma você acha que essas homenagens marcaram a sua carreira.

Recebi essas homenagens como verdadeiros prêmios. Um reconhecimento do meu trabalho. Um marco na minha carreira. Trabalhei, durante muitos anos, no nível central da Secretaria Municipal de Educação num departamento que tinha como objetivo principal de trabalho promover a leitura e formar novos leitores. Dinamizei muitas oficinas de contação de histórias para professores. Visitei muitas escolas para conversar com alunos sobre meus livros, poesia, outros autores e literatura. Esses encontros foram sempre amorosos e ricos de emoção e encantamentos. Batizar as salas de leitura com meu nome foi uma decisão que envolveu alunos e professores. Esta notícia me deixou mais feliz ainda. Ao final do ano de 2011 ganhei mais um “prêmio”: uma escola pública de Cabo Frio ofereceu uma feijoada com apresentação de uma roda de Jongo para a inauguração da biblioteca da escola com o meu nome.

 

- Alguns livros da coleção Lembranças Africanas: Jongo, Maracatu e Capoeira e O Menino Nito participaram da primeira série do programa Livros Animados do Canal Futura do Projeto “A Cor da Cultura” veiculado, ainda hoje, pela televisão ou via site do Canal Futura. O mesmo aconteceu com o livro Cadê Clarisse, que ganhou uma versão musicada em uma escola mineira. Você, quando escreveu as histórias, imaginou que esses livros poderiam ser adaptados para outras linguagens?

Quando escrevo um texto e ele vira livro sei que ele vai correr mundo e então, perco totalmente o controle sobre sua vida. Para mim é sempre uma alegria emocionada quando aprecio meus livros virarem livros animados, músicas, peças teatrais.

 

- Seu livro Traços e Tramas teve um processo de criação diferenciado. Primeiro nasceram as imagens do ilustrador Salmo Dansa e em seguida você criou seis contos distintos. Como foi essa experiência? Foi mais fácil criar as histórias já sabendo as imagens que as representariam?

Gostei muito dessa inversão de ordem. Eu e Salmo fizemos ao contrário, ele me enviou os desenhos com históricos distintos de feitura, e então criei histórias para cada um deles. Dei asas à minha imaginação. Deixei me levar por cada desenho. Foi delicioso o processo criativo porque me deixou leve como uma pluma... Quando escrevi o conto Porquito, por exemplo, me diverti bastante. Era como se todos os contos morassem dentro da minha cabeça e aguardassem apenas um desenho para virar letras, palavras...

 

- Seu livro Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta... foi baseado numa história real ambientada no Piaui, no ano de 1770. Uma escrava alfabetizada teve a coragem de escrever uma carta ao governador contando sobre a sua triste vida e cobrando atitudes das autoridades. Como você teve acesso a essa história?

Recebi um convite da Fundação Palmares para fazer uma história infantil sobre a temática afro brasileira. Tinha um prazo curto para a entrega e fiquei muita ansiosa com isso. Depois de três dias pensando insistentemente sobre a tarefa tive a ideia de uma carta. Foi quase como um sopro no meu ouvido. Era de manhãzinha e eu estava sonolenta ainda. Levantei e escrevi uma carta como tivesse sido escrita por uma escrava. Depois, criei o contexto para dar conta daquela carta e de seus conteúdos... E foi assim que nasceu o livro Tesouros de Monifa, que anos mais tarde a editora Brinque-Book publicou. O curioso disto é que inventei uma escrava alfabetizada e, em pesquisa, descobri que existiu de verdade uma escrava que escreveu uma carta. E uma carta petição ao governador! Muito ousada e corajosa essa escrava piauiense. Fiquei animada com a descoberta e me senti com a responsabilidade de contar a história dessa escrava para todo mundo. Em junho de 2012 lancei o livro Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta, livro muito marcante na minha carreira.

 

- Você costuma dizer que A LEITURA ALIMENTA AS IDÉIAS e que QUEM CONTA UMA HISTÓRIA ABRAÇA ALGUÉM! Quais benefícios você acredita que a literatura pode trazer para a vida das crianças e jovens e por quê?

A literatura proporciona outras possibilidades de experiência para os leitores. Quem lê alimenta as ideias porque a leitura aguça a criticidade e provoca sonhos. Quem lê compreende melhor o mundo e também a si próprio. A intimidade com as palavras se solidifica ao longo do tempo, enquanto se constrói o repertório de leitura. Um leitor nunca fica sem palavras porque, por ser amigo delas, sabe como organizá-las para transmitir uma mensagem, uma opinião, um sentimento – e porque não dizer, uma poesia, um texto literário. Quem conta uma história abraça alguém porque contar história é um ato de amor. Quem se prontifica a oferecer uma história para o outro é como se falasse assim: estou aqui corpo e alma para compartilhar uma história que contarei especialmente para você. Quanto mais leitores, histórias contadas e livros de literatura o mundo tiver, mais sensível, cordial, humano e respeitoso ele será, não tenho dúvidas disso.

 

- Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Sonia Rosa, que livros teriam nela? E por quê?

Tenho sempre na minha cabeceira alguns livros de contos. E, entre tantos, cito alguns de meus autores preferidos: Mia Couto, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Mario Quintana e Lima Barreto.

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